A utilização de resíduos do processo industrial sucroenergético para a produção de biogás começou a chamar a atenção do setor em meados da década passada. Em pouco tempo, o potencial desse produto – e de seu derivado, o biometano – levou aos primeiros investimentos na área.
Uma das pioneiras foi a Cocal, que anunciou uma parceria com a GasBrasiliano (atualmente, Necta) em 2019. A distribuição do biometano por meio de dutos isolados começou em 2022, logo após a inauguração da unidade em Narandiba (SP), que também gera energia a partir do biogás e tem outros modais para comercializar o biocombustível.
Logo na sequência, vieram os planos para expansão da iniciativa, com a construção de uma nova planta em Paraguaçu Paulista (SP). As obras receberam um incentivo fiscal de R$ 14,45 milhões e possuem o apoio de um financiamento de R$ 135 milhões obtido via BNDES. Mas esse é apenas um dos projetos da companhia rumo à redução de sua pegada de carbono.
Para falar um pouco mais sobre os planos e as estratégias da companhia em um cenário de economia circular, a Conferência NovaCana 2024 convidou o diretor comercial e de novos produtos da Cocal, André Gustavo Alves da Silva. O evento acontece em São Paulo (SP) nos dias 9 e 10 de setembro.
Ele será um dos palestrantes do painel “Biogás, biometano e novos mercados”, ao lado do diretor de sustentabilidade e novos negócios da Tereos, Felipe Mendes, e da presidente executiva da Associação Brasileira do Biogás (Abiogás), Renata Isfer.
Alves da Silva é engenheiro pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) com mestrado na cadeia produtiva do agronegócio pela mesma instituição. Em 20 anos de carreira, ele acumula passagens por empresas como Monsanto e Renuka do Brasil, tendo ingressado na equipe da Cocal em 2020.
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O executivo conversou com o NovaCana sobre o tema que será abordado no evento, com destaque para os projetos da Cocal. A seguir, confira a entrevista completa.
A estratégia da Cocal nos últimos anos tem sido bastante voltada à diversificação dos produtos da companhia. O que levou a esse movimento?
A Cocal acredita em utilizar ao máximo o potencial energético da cana. Em 2002, a empresa foi pioneira na cogeração de energia elétrica a partir da queima do bagaço, com caldeiras de alta eficiência. A partir de 2015, com o nosso primeiro ciclo de planejamento estratégico, começamos a buscar utilizar ao máximo o potencial da energia contida na cana. Desde então, um novo ciclo se iniciou, com a procura por esses novos negócios. O primeiro deles foi o biogás, aproveitando a matéria orgânica contida na vinhaça e na torta de filtro para produzir biometano e energia elétrica. Na sequência, a planta de levedura utiliza a sobra do creme de levedura para a produção de proteína animal. E o mais recente negócio é a planta de CO2, que aproveita o CO2 que anteriormente era dispensado para a atmosfera, tanto na fermentação quanto na produção do biometano.
A Cocal foi uma pioneira no setor sucroenergético para a implantação de usinas de biogás e biometano. Por que a empresa decidiu apostar especificamente nesses produtos?
A vinhaça e a torta são resíduos da produção de açúcar e etanol. Eles têm, basicamente, dois grupos de componentes: o primeiro é a matéria orgânica resultante do processo de limpeza e clarificação do álcool e destilação da vinhaça; e o segundo são os nutrientes. A cana precisa dos nutrientes, então, a escolha pela biodigestão se deu exatamente em função disso. A biodigestão consome essa matéria orgânica, que não é aproveitada diretamente pela cana, ao mesmo tempo em que mantém os nutrientes. A ideia era ter um processo que antecipa essa biodigestão – afinal, isso faz parte do processo do ciclo da vida, que gera carbono. É por isso que falamos bastante não em descarbonização, mas em desfossilização. O carbono é parte da vida, mas o carbono fóssil não é. Essa geração de metano sempre existiu, mas ela acontecia involuntariamente no campo.
Ou seja, era um potencial desperdiçado.
Exato. Hoje, o que a Cocal faz é trazer esse processo para um circuito fechado, com escala e com tecnologia própria para aumentar a eficiência, recuperando esse metano, que é transformado em biocombustível ou eletricidade. E o residual desse processo volta para o campo, para cumprir sua função de fertilização. Assim, o fertilizante vai continuar atuando no campo, pois a biodigestão não consome nutrientes.
“Foi em função destas duas características – não consumir os nutrientes e consumir a matéria orgânica de maneira antecipada, gerando biocombustíveis – que a Cocal decidiu investir na produção de biogás”, André Gustavo Alves da Silva (Cocal)
A companhia anunciou que faria, de forma escalonada, a substituição do diesel por biometano em sua frota. Como está o andamento dessa iniciativa?
Esse projeto começou a partir da implantação da planta de biometano em Narandiba (SP). Nós fizemos testes com equipamentos a gás e, à medida em que eles foram trazendo resultados positivos, a frota foi sendo convertida. A aplicação de vinhaça, por exemplo, já utiliza equipamentos a biometano; o mesmo para o transporte de vinhaça e para o suporte das operações, com caminhões oficina e outros.
Qual é o alcance disso? Você pode exemplificar com alguns números?
Hoje, 28 equipamentos diversos já foram convertidos de diesel para biometano na frota da Cocal em Narandiba. Na última safra, nós tivemos o equivalente a 700 mil litros de diesel convertidos em biometano. Ou seja, de todo o volume que a Cocal consome do diesel, 700 mil litros foram mitigados e convertidos para receber o combustível biometano.
Mas a Cocal também comercializa esse produto, por meio da parceria com a Necta para a distribuição de biometano. Correto?
Exato. Nós temos, agora, um gasoduto dedicado – é o primeiro gasoduto isolado do mundo. Ele conecta a nossa planta de Narandiba até o município de Presidente Prudente (SP) e abastece as indústrias desta região com o biometano. Além dessa distribuição via gasoduto, também temos outro modal, que são as carretas para gás comprimido. As indústrias que não estão neste eixo recebem o biometano diretamente, a partir de carretas com o produto comprimido.
A produção de biogás e biometano é considerada rentável pela companhia?
Sim. A Cocal entende isso como um bom mercado, com uma boa geração de valor, por alguns aspectos. O primeiro é darmos uma destinação nobre para um resíduo do nosso processo de produção. Então, algo que ia direto para o campo, atualmente passa por um processo em que se extrai mais biocombustível e volta para o campo. Com isso, reduzimos a nossa pegada de emissões, na medida em que estamos produzindo mais biocombustível com a mesma tonelada de cana processada. Este conceito gera valor para essa cadeia como um todo. Neste caso em específico, há ainda a venda de biometano e, também, da energia gerada a partir do biogás, produtos que, anteriormente, não eram desenvolvidos. São produtos que trazem margem para a companhia.
Você já comentou algumas vezes sobre o uso de biofertilizantes. Qual foi o nível de redução no uso de fertilizantes químicos?
Quando estratificamos as emissões da produção do açúcar e do etanol, percebemos que, apesar de ser um produto verde, com uma pegada 80% menor em relação à gasolina, ainda há uma emissão. E, quando abrimos essas emissões, percebemos que a grande maioria, 92% disso vem da área agrícola. Na sequência, extrapolando isso para os processos, temos os dois principais ofensores: o diesel e o fertilizante. O fertilizante corresponde a 65% das nossas emissões. Quando convertemos esse fertilizante em um biofertilizante, que é o resultado da biodigestão, essas emissões são reduzidas em 75%. Hoje, a Cocal consome algo próximo de 117 mil toneladas de biofertilizantes por ano. Isso representa 50% da nossa necessidade de fertilizantes, portanto, já percorremos 50% no caminho na busca pela nossa redução de fertilizantes fósseis. Com a substituição do diesel pelo biometano, reduzimos ainda mais.
Em 2023, a companhia inaugurou uma usina de energia solar fotovoltaica. Essa área segue nos planos da Cocal? Por quê?
Hoje, a Cocal produz energia a partir de três fontes diferentes. A primeira é o vapor, com a queima da nossa biomassa, que é o bagaço e a palha da cana-de-açúcar. A segunda fonte é a partir do biogás; a planta tem geradores que produzem energia a partir da combustão do biogás. E a terceira fonte é a solar. No ano passado, iniciamos esse projeto em Pirapozinho (SP) e ele já está em operação, com produção de energia a partir das placas fotovoltaicas. Essa iniciativa está em expansão. Este ano, estamos desenvolvendo um segundo projeto, que é três vezes maior do que esse, no município de Presidente Bernardes (SP). Então, sim, a Cocal entende que esse é um mercado relevante e tem desenvolvido projetos para expandir nessa área.
Como você comentou anteriormente, a Cocal também apostou na fabricação de leveduras.
Isso. O excedente do processo de fabricação do etanol é utilizado para a produção da levedura seca. É um produto rico em vitaminas e proteínas, destinado para empresas do segmento de ração animal. Atualmente, a produção é de 6,5 mil toneladas de levedura seca por ano.
Você pode comentar também sobre a planta de CO2? Como foi a recepção desse produto?
Nesse ano, a planta de CO2 já vai operar com 100% da sua capacidade. O produto foi muito bem aceito no mercado por ser, inclusive, um CO2 food grade [com alto padrão de pureza e considerado “verde”]. Então, as indústrias que têm a preocupação em reduzir a sua pegada estão optando por esse tipo de insumo.
De olho no futuro, que outros produtos ou medidas para redução da pegada de carbono estão no radar da Cocal?
Nós temos um plano estratégico, de longo prazo, que olha para os próximos anos – e esse plano direciona a companhia sempre na rota de redução das emissões. Todos os produtos que desenvolvemos têm relação direta ou indireta com a cana-de-açúcar e, por consequência, têm baixa pegada. Então, o direcionador da companhia é esse: queremos reduzir a nossa pegada, substituir 100% do fertilizante químico e buscar outros produtos, que gerem valor a partir desta interação. Temos um projeto muito interessante, que envolve as companhias que se conectam com a Cocal e que se aproveitam deste ecossistema para destinar ou receber os seus produtos. A Cocal entende, de fato, que é uma jornada que continuará e temos planos para desenvolver outros produtos e maximizar a geração de valor para a cadeia da bioenergia.
Estes e outros tópicos sobre novos produtos, nichos de mercado, descarbonização e economia circular devem marcar presença durante a Conferência NovaCana 2024. A programação completa está disponível no site do evento.
Renata Bossle – NovaCana