Etanol: Mercado

Etanol: Mercado

[Opinião] Qual será o futuro do etanol de milho no Brasil?

O etanol de milho mudou a dinâmica da oferta e trouxe impactos ao setor sucroenergético


Globo Rural - Publicado: 07 Jul 2026 - 09:25

Por João Rosa*

Nas minhas andanças pelo setor canavieiro, uma pergunta é recorrente: “Como vai ficar nosso setor com o avanço do etanol de milho?”.

A preocupação é válida. Afinal, os cerca de 9 bilhões de litros do etanol de milho em 2025 já respondem por mais de 25% da oferta nacional do produto. Em 2015, apenas dez anos atrás, o volume era de 0,14 bilhões de litros e representava cerca de 0,5% da oferta. Um crescimento vertiginoso. E, com fôlego para mais.

Conhecendo o conceito básico de oferta e demanda, o que pensa o produtor de cana? “Então se não tivesse essa ‘turma do milho’, era para os ‘nossos’ preços estarem melhores”. A resposta é óbvia: sim. Por mais que diversos fatores interfiram no preço, a relação entre oferta e demanda continua soberana.

Esse sentimento de “nós contra eles”, no entanto, é imaturo. Minar oportunidades de outras cadeias agrícolas e lamentar a perda da exclusividade, ou melhor, a falta dela, não parece coerente.

Por mais que haja ajuste de oferta, com entrada e saída de produtores em um ambiente em que prevalece a eficiência, o cenário não deveria ser encarado como concorrência, mas como aliança. Uma relação com objetivo comum: estimular o consumo. E as oportunidades são diversas. A seguir, elenco pelo menos três.

  1. Consumo interno

    Os veículos flex fuel representam cerca de 75% da frota circulante leve do Brasil. Desses, apenas 35% optam por etanol em vez da gasolina. Posto de outra forma a cada quatro veículos que você vê andando na rua, três deles podem escolher com o que vão abastecer. Apenas um escolhe o etanol.

    E por qual razão? Não vende, por que não tem? Ou se tem, está caro? Ambos. Realmente, regiões fora do eixo de produção de cana (e note como o milho ajudou a reduzir parte desse problema), como o Norte e Sul do país, enfrentam desafios como custos de logística e, portanto, de disponibilidade, o que acaba encarecendo o produto.

    Daí esbarramos na paridade energética de 70% diante da gasolina. E por mais que essa diferença, muitas vezes, desfavoreça o etanol por poucos pontos percentuais, a escolha acaba sendo para o derivado do petróleo.

    Mas, apesar dos desafios regionais, muito da não adoção do etanol é comportamental. Infelizmente, o nosso biocombustível carrega algumas heranças negativas. Que ele corrói o motor e que o carro não pega no frio, talvez sejam as mais famosas.

    Verdade? Se você estiver parado nas décadas de 1980 e 1990, sim. Nos dias de hoje? Não tem o menor sentido. O avanço tecnológico ao longo das décadas de 2000 e 2010 permitiu que muitas das dificuldades iniciais, inclusive as citadas, fossem superadas.
  2. Consumo mundial

    Além do Brasil, quem consome etanol carburante no mundo? E não estou falando do consumo direto – chegar no posto e pedir para completar com etanol. Isso, é praticamente exclusividade nossa.

    Estou falando do consumo indireto: mistura à gasolina. Poucos. Dos 195 países do mundo, apenas 15 fazem o uso de etanol misturado à gasolina. E, mesmo assim, normalmente em percentuais tímidos, entre 5% e 10%, cercados de restrições e exceções. Muito distante dos cerca de 30% praticados por nós.

    O motivo é simples: eles não possuem etanol. Mas quem não tem, compra. Hoje exportamos apenas 5% do que produzimos.
  3. Uso em novos segmentos

    Aqui, não me refiro necessariamente ao SAF e ao biobunker, combustíveis de aviação e marítimo, respectivamente. Em me refiro a algo mais próximo: a própria agricultura. Dentro do setor do agrícola, quais equipamentos utilizam etanol?

    Ainda que nos últimos anos, pesquisas e alguns lançamentos de motores agrícolas tenham avançado, parece pouco diante dos mais de 50 anos desde o Proálcool. Produzimos etanol há décadas. Mas ainda utilizamos pouco dele para movimentar a própria cadeia que o produz.

O etanol de milho realmente mudou a dinâmica da oferta e trouxe impactos ao setor sucroenergético. Mas talvez o maior erro seja responder mais oferta com disputa interna. Em vez de discutir de onde vem a oferta, talvez devêssemos discutir de onde virá a próxima demanda e como ampliá-la.

* João Rosa, conhecido como Botão, é diretor do Pecege Consultoria e Projetos e um dos palestrantes confirmados na Conferência NovaCana 2026, que acontece em 28 e 29 de setembro


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