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Estudos

Fatores que devem influenciar os preços dos combustíveis até 2020


novaCana.com - 16 out 2013 - 06:10 - Última atualização em: 27 ago 2014 - 17:08
Rumo a 2020, as trajetórias dos preços do petróleo e etanol nos mercados internacionais irão sofrer influências diversas. Este levantamento selecionou sete condicionantes que terão influência determinante sobre a precificação desses combustíveis. São eles:
  • Ampliação da oferta de petróleo: no período 2004-2010, a oferta de petróleo no mundo tem se mantido relativamente constante, em um patamar próximo a 80 milhões de barris/dia. No entanto, as sucessivas inovações nos processos de prospecção e produção estão possibilitando a identificação de novos e mais profundos reservatórios de petróleo e gás natural no Brasil, no Golfo do México e na Costa da Guiné.

A oferta potencial de petróleo também tem aumentado por crescimento de reservas, seja por uma revisão do método utilizado em estimativas anteriores, seja por se haverem subestimado os recursos iniciais existentes na jazida. A terceira forma de crescimento das reservas é por meio do avanço tecnológico no processo de recuperação do petróleo existente, hoje limitado a cerca de 35% do volume presente nos campos.

Fontes de mercado hoje estimam ser necessário um adicional de produção de 9 bilhões de barris/ano para atender à expansão de demanda até 2020. O consumo de derivados médios (como diesel) e leves (como gasolina) tem aumentado recentemente, enquanto se reduz o consumo de derivados pesados (como óleo combustível). No entanto, o crescimento futuro da demanda tende a ser atendido, gradualmente, por volumes crescentes de petróleo pesado (como as areias petrolíferas do Canadá e o petróleo extrapesado da Venezuela, além de campos de petróleo pesado em países do Oriente Médio), tornando necessário o aumento da capacidade de conversão nas refinarias, condição técnica para ampliar a oferta de derivados leves, com maior valorização no mercado.

Uma característica comum a todas as novas fontes de petróleo na próxima década será o seu elevado custo de produção. É praticamente consenso que todo o petróleo "barato" já foi encontrado, e que tecnologias de incorporação e recuperação de reservas continuarão sendo custosas.

evolucao das reservas

  • Ampliação da capacidade produtiva de etanol: o consumo de etanol como combustível automotivo vem se ampliando desde a década de 1980 a uma taxa de 5,6% ao ano no Brasil e de 13,4% ao ano nos Estados Unidos. Novos processos de produção de etanol, no entanto, deverão se tornar comercialmente viáveis, gerando ganhos substanciais de retorno energético e reduzindo a pegada de carbono da produção de biocombustíveis.

Os principais processos de segunda geração envolvem a produção de etanol a partir de celulose e lignina, elementos estruturais presentes em todas as espécies vegetais disponíveis, incluindo algumas com alta produtividade agrícola, como o painço.

Estima-se que o potencial produtivo do etanol de celulose dos EUA corresponda a 11 milhões de barris de petróleo equivalentes (boe) por dia, o equivalente a cerca de 60% do consumo atual de petróleo daquele país. No entanto, apesar dos incentivos substanciais, os investimentos não estão seguindo o ritmo previsto pelos planos e mandatos fixados pelo Energy Independence Security Act de 2007. Embora os mandatos sejam direcionadores dos investimentos e promovam o financiamento por garantir a venda do produto, com a crise de 2008, os fundos disponíveis para energia limpa foram orientados para projetos de energia eólica e solar, que dispunham de maior apoio por parte do governo dos EUA.

Esse atraso levou a EPA (Agência de Proteção Ambiental do governo dos Estados Unidos) a reduzir o volume do mandato estabelecido para 2010 e 2011 para 1,72 e 1,74 milhão de litros de etanol de celulose. O cronograma original fixa, para 2022, o mandato de 4,3 bilhões de litros de etanol de celulose. Mandatos envolvendo a oferta de etanol de celulose exigem que as empresas distribuidoras misturem volumes determinados do produto à gasolina. Uma penalidade incide sobre as empresas de petróleo caso a oferta de etanol de celulose não atenda ao volume previsto no mandato, levando-as a financiar a construção de plantas de etanol de celulose.

Os EUA atualmente lideram a pesquisa e desenvolvimento comercial de tais processos, mas, à medida que a produção em larga escala se mostrar comercialmente viável, o etanol de segunda geração tem o potencial de se tornar um dos principais componentes da matriz energética em nível mundial, sendo objeto de investimento nos grandes países produtores de etanol, como Brasil, China e Índia.

  • Políticas de subsídios à produção de etanol: em alguns países, os subsídios à produção de etanol têm funcionado como garantia de competitividade em face da gasolina e do etanol importados. Com a implantação de mandatos que fixam a proporção de mistura na gasolina, há uma garantia de mercado e os subsídios ficam caracterizados como apoio às condições locais de produção e barreira adicional ao etanol importado.

Nos Estados Unidos, um conjunto de subsídios federais e estaduais fornece incentivos ao longo da cadeia de valor do etanol. Além disso, uma tarifa de importação de US$ 0,14/litro também contribui para garantir a competitividade do etanol de milho em face do produto importado. A política de subsídios ao etanol teve início na década de 1970, e hoje estima-se que, graças a isso, o etanol produzido nos EUA seja, em média, 30% mais barato. Entretanto, diante da frágil situação econômica e fiscal dos EUA, bem como ao crescente reconhecimento político de que o etanol importado será necessário para atender à demanda futura, muitos acreditam que a tendência durante a próxima década envolverá a gradual redução dos subsídios.

De modo abrangente, a política comercial da União Europeia restringe a importação de biocombustíveis com uma tarifa de proteção ao etanol de 45% ad valorem (conforme o valor). Ao mesmo tempo, em 2008, por falta de matéria-prima, utilizou-se apenas 44% da capacidade de produção de etanol da União Europeia (de 5 milhões de toneladas). Isenções a impostos especiais de consumo, estimados em cerca de € 2,8 bi em 2008, contemplam o etanol produzido em vários países-membros.

Além disso, a União Europeia concede subsídios a investimentos em capacidade de produção que incluem tecnologias para a fabricação de etanol de segunda geração. Entretanto, a produção na região é incipiente em comparação com os grandes produtores, nos quais a sua política de subsídios tem relativamente menor impacto no mercado internacional.

  • Medidas de eficiência e substituição energética: a intensidade energética vem se reduzindo em razão de melhorias na eficiência da energia, substituição de combustíveis e mudanças em indústrias intensivas. A necessidade de ganhos de eficiência energética conjuga-se com os objetivos de segurança energética e de redução das emissões, gerando incentivos para a substituição de fontes de energia.

Como consequência, entre 1980 e 2008, ocorreu uma redução de 32%, ou 1,35% ao ano, no consumo global de energia, equivalente ao consumo atual somado dos Estados Unidos e da União Europeia.

Essa redução é diferenciada em cada país em função da estrutura econômica, da aplicação de medidas de eficiência energética, bem como de diversos fatores exógenos que incluem desde o modelo de urbanização (distância entre moradia e trabalho) e clima (necessidade ou não de climatização) até estrutura de produção (existência ou não de empresas intensivas em energia). Estima-se que diferenças na estrutura de produção respondam por quase 50% da variação de intensidade energética industrial entre países.

O preço dos combustíveis e a tributação têm efeito negativo sobre a intensidade energética. Isso explica a intensidade mais elevada nos Estados Unidos, bem como em países que subsidiam os combustíveis e em países produtores de petróleo. Também explica a menor intensidade demandada por economias com elevada tributação do consumo, como na União Europeia.

No setor de transportes, a necessidade de ganhos de eficiência energética conjuga-se com os objetivos de segurança energética e de redução das emissões, gerando incentivos substanciais não somente à adoção de medidas de eficiência e tecnologias de redução do consumo, como também à substituição de fontes de energia. Dentre estas, as principais são o carro elétrico híbrido de tomada (PHEV), o etanol e o biodiesel.

Nos EUA, as metas governamentais, que vinham sendo implementadas pelo padrão Cafe (Corporate Average Fuel Economy) a uma taxa de crescimento de 2,2% ao ano, estão sendo intensificadas para que haja alinhamento com a meta da Califórnia de redução, em 2025, das emissões a 40%-50% do nível de 2016. Para isso, será necessário promover ganhos de eficiência de 3% a 6% ao ano no período 2016-2025. Ademais, prevê-se uma intensificação das vendas de veículos E85 (85% de etanol e 15% de gasolina), de forma a atender às metas mandatórias de consumo de etanol. Foram concedidos créditos federais a fabricantes que produzissem automóveis capazes de funcionar com combustíveis alternativos.

Na União Europeia, as metas de consumo de etanol não são mandatórias, uma vez que não há competência para definir parcelas de mercado aos países-membros, apesar de uma diretiva de 2003 estabelecer uma parcela de 5,75% do mercado aos biocombustíveis em 2010. Recentemente, no entanto, países como a França, Alemanha, Áustria e Holanda fixaram metas mandatórias.

  • Potencial de crescimento macroeconômico: a evolução da demanda por energéticos é fortemente atrelada ao crescimento macroeconômico. Ou seja, quanto maior esse crescimento, mais energia é demandada pelas empresas para viabilizar uma maior produção de bens e serviços. O crescimento econômico também se traduz em maior renda para as famílias, viabilizando um maior consumo de combustíveis, eletricidade e outros usos de energia.

Do ponto de vista da economia mundial, o fim da última década foi especialmente turbulento. A trajetória de crescimento delineada em anos anteriores, até então considerada por muitos inabalável e destinada a se perpetuar, foi abruptamente interrompida por uma das maiores crises financeiras da história, que expôs a vulnerabilidade do sistema financeiro mundial e, ao mesmo tempo, acarretou poucas mudanças.

O estudo baseia suas análises nos cenários prospectados pelo Fundo Monetário Internacional em seu World Economic Outlook. Esta publicação reflete a premissa de que os anos até 2015 serão marcados pela retomada do crescimento econômico, retornando gradualmente ao seu patamar pré-crise. Considerou-se que tal trajetória representa o "potencial de crescimento", ou seja, a tendência mais provável na ausência de choques continuados, sejam estes de caráter cambial, geopolítico ou mesmo de disponibilidade energética. Para o final desta década, adotaram-se premissas de maior incerteza e menor crescimento médio, em função dos evidentes limites físicos e financeiros à expansão continuada do mundo em desenvolvimento no ritmo atual.

  • Cenário cambial: a manutenção do dólar como moeda franca do comércio internacional vem se mostrando crescentemente frágil, em função da deterioração dos fatores que garantiram a ascensão e manutenção da moeda ao status de reserva de valor ao longo do século XX. Acredita-se que a perda de valor do dólar responda por uma fração dos aumentos de preços de commodities no mercado internacional, incluindo-se aí o petróleo.

Neste estudo, os preços estão denominados em valores constantes de 2010, sendo possível abstrair da análise os efeitos inflacionários. Entretanto, a evolução do mercado brasileiro de combustíveis é prejudicada no comportamento do real vis-à-vis a moeda americana, que deve ser considerada como um driver à parte, possuidor de particular relevância nesse mercado.

Embora a perda de valor do dólar no âmbito mundial, junto da evolução da economia brasileira, tenha se refletido em uma tendência geral de valorização do real desde o pico histórico de 2002 (interrompida esporadicamente por choques de confiança – tais como, ironicamente, a própria crise financeira, originada nos EUA), a estrutura de demanda pela moeda brasileira ainda tem fragilidades e é excessivamente exposta a incertezas e a especulações. Ademais, há correntes segundo as quais o presente patamar de valor do real é incompatível com o nível de exportações desejável para um crescimento econômico robusto a longo prazo, sendo necessário um ajuste cambial. Desta forma, o cenário que se apresenta para a próxima década é de incerteza e potencial volatilidade.

  • Política de preços da Petrobras: a Petrobras tem praticado uma política de estabilização real dos preços internos dos derivados de petróleo, não repassando variações consideradas transientes e reduzindo efetivamente a exposição da economia nacional a choques nos preços internacionais do petróleo.

Essa política se evidencia em momentos de elevação rápida dos preços, como ocorreu em diversos momentos da década passada. É possível observar que o preço da gasolina nos Estados Unidos – país que não pratica o controle de preço – segue trajetória aproximadamente paralela à dos preços internacionais da matéria-prima, elevando-se em períodos de crise, enquanto o preço observado no Brasil permanece relativamente estável.

O nível de descolamento dos preços internos dos derivados do petróleo tem implicações significativas sobre os mercados energéticos nacionais, de forma que a trajetória futura dos preços do petróleo e derivados para o mercado brasileiro depende criticamente das premissas adotadas sobre o comportamento da Petrobras. Este comportamento é desvinculado dos preços internacionais (em função da viabilidade política e financeira de continuar assumindo esses custos), mas também é influenciado por outras considerações, como o papel da estabilização de preços no esquema mais amplo das políticas econômicas do governo.

Embora tal regra de decisão tenha sido mantida ao longo das condições bastante diversas que o mercado enfrentou ao longo na última década, muitos acreditam que a longo prazo tal política não é sustentável e deverá ser relaxada gradualmente mais cedo ou mais tarde.

A política de preços da Petrobras tem impactos substanciais também sobre o mercado de etanol. Sendo o Brasil um mercado relativamente fechado no que se refere ao álcool, os produtores de etanol dispõem não somente da opção de produzir açúcar, como também de priorizar o mercado externo de etanol em relação ao nacional, em função do diferencial entre as cotações interna e internacional do produto.

Considerou-se, neste levantamento, a possibilidade de que, durante a presente década, a Petrobras realize uma transição rumo a um regime de preços mais compatível com a realidade internacional. Em tal regime, a Petrobras efetivamente passaria a agir como um price-taker em um mercado competitivo, estipulando um mark-up necessário para cobrir custos tributários, margens de transporte e comércio e ajustando os preços internos de acordo com as variações nas cotações internacionais. Dentro das análises e simulações realizadas, o ano no qual tal transição de regimes se iniciará foi identificado como sendo o parâmetro mais relevante. Assim, o timing dessa transição é um dos fatores que determinam em que medida o mercado brasileiro se alinhará ao internacional até 2020. Especificamente, quanto mais essa mudança de regime for adiada, mais os preços praticados no final da década estarão próximos em relação aos de hoje em dia.

O estudo designou as possíveis trajetórias para cada driver, caracterizadas por meio de três cenários: um baseline e dois extremos (referidos aqui como A, B e C). Cada driver é considerado como um grupo de variáveis independentes das demais, de forma que a plausibilidade dos cenários deve ser considerada de forma isolada para cada driver. Vale notar ainda que os cenários A e C representam os extremos de uma gama de diversas possibilidades, elaborados de forma a ser consistentes com as projeções quantitativas e qualitativas reunidas acima. Este estudo não pretende produzir afirmações categóricas em relação aos valores máximos e mínimos que qualquer indicador ou variável possa alcançar nos anos futuros.

cenarios assumidos

cenarios assumidos 02
Fonte: Ernst & Young e FGV Projetos (coordenador Fernando Blumenschein)
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