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Uso da vinhaça na cultura da cana-de-açúcar


O vinhaça também é conhecida pelos nomes vinhoto, tiborna ou restilo. Ele representa o resíduo pastoso e malcheiroso que sobra após a destilação fracionada do caldo de cana-de-açúcar (garapa) fermentado, para a obtenção do etanol (álcool etílico). Para cada litro de álcool produzido, 12 litros de vinhaça são deixados como resíduo.

Há usinas que já aplicam vinhaça em 70% da sua área de cultivo, e há outras com valores bem menores (NETO, 2005). De maneira geral, a cada safra, a área com uso de fertirrigação das usinas aumenta na busca do uso racional da vinhaça, visando maior produtividade agrícola e redução no uso de fertilizantes químicos. Isto tem levado a doses cada vez menores (m3/ha), distanciando-se de valores que poderiam trazer danos (salinização e contaminação do lençol freático).

O uso controlado do vinhoto e da torta de filtro é reconhecidamente uma boa prática na cultura da cana do ponto de vista ambiental e produtivo, pois permite a total reciclagem dos resíduos industriais (vinhoto, torta de filtro e água de lavagem – de limpeza do chão, de purga do circuito fechado e condensados remanescentes), aumento da fertilidade do solo, redução da captação de água para irrigação, redução do uso de fertilizantes químicos e custos decorrentes.

No início do Proálcool, são reconhecidos os impactos causados pelo vinhoto na contaminação das águas e solos quando se descartava diretamente nos cursos de água e de forma descontrolada sobre os solos. Combinando legislação, que reconheceu os problemas ambientais do uso do vinhoto, e maior percepção dos usineiros quanto aos benefícios do uso controlado do vinhoto e da torta de filtro, a fertirrigação controlada passou a fazer parte cada vez maior das práticas agrícolas. Mesmo assim, a fiscalização e o controle sobre a fertirrigação são medidas essenciais para garantir a sustentabilidade ambiental.

Respeitando-se as características dos solos onde é aplicada, a localização das nascentes d’água e os volumes, a vinhaça não provoca efeitos negativos (De SOUZA, 2005). Resultados nos testes até hoje indicam que não há impactos danosos ao solo com doses inferiores a 300 m³/ha. Acima deste valor, pode haver danos ao solo ou, em casos específicos (solos arenosos ou rasos), contaminação das águas subterrâneas.

O vinhoto, além de fornecer água e nutrientes, age como recuperador da fertilidade do solo, inclusive em profundidade. Introduz nutrientes em profundidade como o Ca++, Mg++ e K+, enriquecendo os solos. Há muitos experimentos que comprovam os resultados positivos obtidos na produtividade agrícola (t de cana/ha).

A lixiviação dos elementos representaria desperdício de adubo e poderia levar a riscos de poluição. No caso da vinhaça os elementos pesados existem, mas em teores muito baixos, e não representam perigo para o meio ambiente. Os macro e microelementos minerais de maior concentração nos lixiviados seriam o K+, Ca2+, SO42- e Cl-, respectivamente. Avaliações dos riscos pelos metais presentes na vinhaça, em cinco anos, concluíram que não se alteraram significativamente as quantidades de NO-3, NH4+ e fósforo solúvel, nem os teores de zinco, cobre, ferro e manganês solúveis. Apenas o SO42- apresentou lixiviação até 80 cm (De SOUZA, 2005).

A salinização também pode ser um outro problema para os solos fertirrigados. De acordo com De Souza (2005), usos inferiores a 400 m3/ha não trazem problemas de salinização ao mencionar estudos feitos em três tipos de solos (aluvial, 51% de argila; podzólico vermelho amarelo, 38% de argila; e hidromórfico, 5,5% de argila). Adicionalmente, há concordância entre alguns pesquisadores que doses acima de 400 m3/ha são prejudiciais à cana (redução da qualidade e produtividade).

Recentemente, em São Paulo, a Secretaria do Meio Ambiente e o setor produtivo desenvolveram uma Norma Técnica com o objetivo de regulamentar a aplicação do vinhoto no estado de São Paulo. De acordo com De Souza (2005), “Esta norma técnica busca uma forma segura de aplicação da vinhaça (ou vinhoto), definindo os locais permitidos, as doses, o revestimento de canais mestres e depósitos etc., e considerou os resultados de anos de estudos na busca de processos seguros em relação aos vários aspectos da proteção ambiental. A utilização de forma eficiente da vinhaça é de grande interesse dos produtores, pelo seu retorno econômico; deve-se esperar que as tecnologias continuem a evoluir neste sentido, envolvendo a interação da vinhaça com a palha residual deixada no campo”.

Problemas identificados na utilização da vinhaça

O vinhoto é caracterizado como efluente de destilarias com alto poder poluente e alto valor fertilizante. O seu uso na fertirrigação deve ser controlado para evitar impactos ambientais negativos no solo, nascentes e lençóis freáticos.

O poder poluente do vinhoto, cerca de cem vezes maior que o do esgoto doméstico, decorre da sua riqueza em matéria orgânica, baixo pH, elevada corrosividade e altos índices de demanda bioquímica de oxigênio –DBO (20.000 a 35.000 mg/l), além de elevada temperatura na saída dos destiladores (de 85 a 90 °C); é considerado altamente nocivo à fauna, flora, microfauna e microflora das águas doces, além de afugentar a fauna marinha que vem à costa brasileira para procriação (Da SILVA et al., 2007).

Dos efluentes líquidos da indústria sucroalcooleira, o vinhoto é o que possui maior carga poluidora. A quantidade despejada pelas destilarias pode variar de 10 a 18 l de vinhoto por litro de etanol produzido, dependendo das condições tecnológicas da destilaria, e sua composição é bastante variável, dependendo principalmente da composição do mosto.

Um dos impactos negativos mais relevantes refere-se ao efeito do ânion sulfato no solo. A presença de sulfato em destilarias de etanol de cana-de-açúcar é resultante do emprego de ácido sulfúrico na fermentação. Para o caso de uma destilaria autônoma, utilizam-se aproximadamente 5 kg de ácido sulfúrico (98% de concentração) por m³ de etanol produzido, valor que sinaliza que dosagens comparativamente elevadas de sulfato estão sendo aplicadas no solo.

Oportunidades a serem exploradas nos canaviais

Existem muitas oportunidades para garantir a prática do uso controlado do vinhoto nos canaviais. Com efeito, há bastante conhecimento com relação às qualidades da vinhaça para a utilização como fertilizante e há muitos anos que existe regulação para um plano de manejo (FERRAZ, 2007). Uma das alternativas é usar a Norma Técnica aprovada pela Secretaria de Meio Ambiente do estado de São Paulo, que regulamenta sua aplicação. A Norma poderia ser adaptada e utilizada por outros estados, inclusive em nível nacional.

Há ainda oportunidades de otimização da fertirrigação do vinhoto, com o potencial de diminuir a quantidade lançada por ha sem reduzir seus impactos positivos no solo e na produtividade, e reduzindo a concentração de íons sulfato. A capacidade de reciclagem dos nutrientes será importante principalmente para o Centro-Oeste brasileiro, contribuindo para a melhoria da fertilidade dos solos.

O vinhoto deve ser visto, também, como agente do aumento da população e atividade microbiana no solo. A matéria orgânica pode ser considerada fator importante na produtividade agrícola devido à influência que exerce sobre as propriedades químicas, físicas e biológicas do solo (Da SILVA et al., 2007).

Segundo Da Silva et al. (2007), a adição de vinhaça, juntamente com a incorporação de matéria orgânica, como vem sendo praticado de forma crescente na lavoura canavieira, pode melhorar as condições físicas do solo e promover maior mobilização de nutrientes, em função, também, da maior solubilidade proporcionada pelo resíduo líquido.