BASF

Sistemas de preparo do solo para plantio da cana


No ciclo de produção da cana-de-açúcar, podem-se identificar as fases de plantio, tratos culturais e colheita nas quais são transportados fertilizantes, defensivos químicos, mudas, palhiço e colmos para moagem, em ordem crescente de intensidade de tráfego pela quantidade de massa movimentada. O tráfego de tratores, colhedoras, implementos e veículos de transporte utilizados nas referidas fases contribuem para o adensamento do solo, tornando necessárias operações pesadas como subsolagem, aração ou gradagem para sua desagregação.

Os processos agronômicos de produção de cana-de-açúcar continuam os mesmos utilizados durante vários séculos, mesmo em regiões com maior desenvolvimento tecnológico, como o estado de São Paulo. Experiências bem sucedidas em escala comercial mostram que outros processos agronômicos como, o Cultivo Mínimo e o Plantio Direto, podem substituir, com vantagens, o sistema de preparo convencional que atualmente domina a agricultura canavieira. Existem três opções para o preparo do solo, na fase de plantio: Sistema Convencional, Sistema de Cultivo Mínimo e Sistema de Plantio Direto. Estes sistemas estão descritos em ordem decrescente de utilização comercial.

Sistema Convencional de preparo de solo para o canavial

O Sistema Convencional de preparo do solo envolve operações de subsolagem e aração, combinadas por gradagens para a eliminação das soqueiras e incorporação de corretivos de solo. O tráfego intenso de colhedoras e veículos de transporte são normalmente os agentes compactadores que justificam o uso da subsolagem e das gradagens. Desse modo, um ciclo vicioso de compactação e descompactação se repete ao longo do tempo, sendo que ambas as operações, tanto de compactação quanto de descompactação, demandam equipamentos, combustíveis, mão de obra e investimentos para serem realizadas. Estima-se que a perda de solo para outras culturas, decorrente do preparo convencional, pode atingir 50 toneladas por hectare ao ano.

A cultura de cana-de-açúcar apresenta um índice de perda de solo relativamente pequeno, cerca de 12,4 toneladas de terra por hectare ao ano (UNICA, 2007).

Sistema de Cultivo Mínimo

Esta técnica destaca-se por substituir as operações convencionais de preparo do solo em área total por um preparo concentrado na linha de plantio, que consiste mais frequentemente em uma subsolagem, que pode ser complementada por uma desagregação mais intensa do solo por meio de enxada rotativa em uma faixa estreita vizinha à linha de subsolagem.

Em relação ao Cultivo Convencional, o Cultivo Mínimo apresenta redução na erosão, redução no uso de máquinas e implementos, reduzindo assim o uso de combustíveis. A perda de solo para outras culturas neste sistema pode atingir 20 toneladas por hectare ao ano, contra 50 toneladas por hectare ao ano no caso de plantio convencional.

Sistema de Plantio Direto

O Sistema de Plantio Direto é uma técnica de manejo do solo em que palhiço e restos vegetais (folhas, colmos, raízes) são deixados na superfície do solo. O solo é revolvido apenas no sulco onde são depositadas as mudas e fertilizantes e as plantas infestantes são controladas por herbicidas, evitando assim cultivos mecânicos que provocam a compactação. Não existe preparo do solo além da mobilização no sulco de plantio.

A redução da erosão, a melhoria das condições físicas e de fertilidade do solo, o aumento do teor de matéria orgânica, de nutrientes e de água armazenada, bem como a redução no consumo de combustíveis com a manutenção da produtividade da cultura, indicam o Plantio Direto como o sistema para alcançar maior sustentabilidade da agricultura, com mínimos impactos ambientais e sem degradação dos recursos naturais.

No Brasil, o sistema de Plantio Direto começou a ser implantado no início dos anos 1970, no norte do Paraná, com o objetivo de amenizar os prejuízos causados pela erosão do solo com a sucessão das culturas de trigo/soja.

Na década de 1990, o sistema começou a ser utilizado de maneira expressiva no Rio Grande do Sul e em parte do Cerrado (GO, MG e DF). Atualmente, o Brasil tem uma área cultivada com Plantio Direto que ultrapassa os 25 milhões de hectares, sendo o Paraná e o Rio Grande do Sul os estados que mais utilizam esta técnica de plantio, principalmente nas lavouras de soja, milho, feijão, trigo e arroz. A soja é a cultura com maior incidência deste sistema de plantio.

Consequências do Sistema de Plantio Direto da cana

Com a cobertura vegetal, verifica-se diminuição do volume de resíduos químicos existentes nas enxurradas, em comparação ao solo sem cobertura vegetal, o que acarreta a redução da poluição dos cursos de água. Outra consequência é o aumento da atividade biológica, resultante do aumento de matéria orgânica no solo, o que possibilita menor uso de fertilizantes.

A cultura de cana-de-açúcar gera um excedente de biomassa vegetal com grande potencial para ser empregado como cobertura do solo. Atualmente, os procedimentos de corte e colheita, como a limpeza prévia pelo fogo, limitam a disponibilidade e aproveitamento desta biomassa. Assim que for generalizada a colheita mecanizada e abolida a prática de queima do palhiço (prevista por leis estadual – SP – e federal), haverá uma grande disponibilidade deste material para cobertura do solo. Hoje as estimativas são de que o resíduo da colheita de cana-de-açúcar pode atingir 140 kg por tonelada de cana entregue na usina (base seca).

Esta quantidade de biomassa vegetal está acima da necessária à para cobertura do solo. A quantidade mínima de cobertura morta para um desempenho eficiente do plantio direto não está, ainda, bem determinada. A seguir, são detalhadas algumas vantagens do sistema de Plantio Direto.

Redução da perda de solo

Apesar da cultura de cana-de-açúcar apresentar um índice reduzido de perda de solo, a degradação dos solos afeta grandemente as terras agrícolas e pode ser considerada um dos mais importantes problemas ambientais dos nossos dias. Dentre os tipos de degradação, a erosão é uma das formas mais prejudiciais, uma vez que reduz a capacidade produtiva das culturas, além de causar sérios danos ambientais, tais como assoreamento e poluição das fontes de água.

O Plantio Direto é um sistema de manejo muito eficiente no controle da erosão. O palhiço sobre a superfície protege o solo contra o impacto das gotas de chuva, reduzindo a desagregação e o selamento da superfície, garantindo maior infiltração de água e menor arraste de solo. O Plantio Direto reduz em até 90% as perdas de solo e em até 70% a enxurrada.

Mesmo em culturas com menor quantidade de resíduos de cobertura que a cana-de-açúcar, estima-se que as perdas de solo com a erosão podem ser reduzidas em aproximadamente 76%.

Redução da perda de água

A água ocupa um lugar de destaque no manejo da cana-de-açúcar, pois, quando limitante, reduz significativamente a produtividade, mesmo em solos mais férteis e, quando adequada, consegue boa produção, mesmo nos solos com menor potencial.
Em relação à cobertura vegetal, verifica-se que o palhiço cobrindo o solo aumenta a retenção de água, já que diminui a evaporação e reduz, ou até mesmo elimina, o escoamento superficial. Estudos indicam uma redução na perda de água de aproximadamente 70% com o uso do Plantio Direto.

Melhoria da fertilidade do solo

Um dos efeitos mais significativos do aumento dos teores de matéria orgânica no solo, proporcionado pelo Plantio Direto, é o aumento na chamada Capacidade de Troca Catiônica (CTC). Em linhas gerais, CTC é a capacidade que um solo apresenta de armazenar nutrientes para que estes sejam posteriormente utilizados pelas plantas. A maior parte dos solos brasileiros é constituída por solos pouco férteis e pobres em matéria orgânica. O aumento da matéria orgânica propicia um aumento da atividade biológica e também um aumento da disponibilidade de nutrientes, como o fósforo e o cálcio. Todos esses fatores contribuem para o aumento da produtividade da cultura e possibilitam a redução da aplicação de fertilizantes, especialmente os fosfatados.

Na cultura da cana-de-açúcar, ainda é pequena a utilização do Sistema de Plantio Direto, contudo resultados preliminares mostram tendências similares a outras culturas. O gráfico mostra resultados de estudos iniciados no ano 2000, em uma propriedade do município de Pitangueiras, SP, utilizando plantio direto da cana-de-açúcar em sucessão com soja, nos quais foram verificados aumentos de produtividade da ordem de 9%, e constatada uma redução de 24% no custo de produção da soja e de aproximadamente 10% no caso da cana-de-açúcar.

Produtividade da cana de 18 meses em Plantio Direto e Convencional

Produtividade da cana de 18 meses em Plantio Direto e Convencional

O Plantio Direto encontra fundamentações em outras culturas para mostrar que sua introdução na cultura canavieira deve acontecer, mesmo que existam na atualidade entraves tecnológicos que pareçam indicar o contrário.

Os incentivos clássicos ligados à redução de custo de produção, redução das perdas de solo e água, assim como potencial de aumento de produtividade, existem tanto no caso da cana-de-açúcar quanto em outras culturas, em que os resultados econômicos já mostraram essas vantagens em escala comercial.

Entretanto, a implantação deste sistema de plantio está em confronto com o conjunto de técnicas agrícolas praticadas atualmente, baseadas em tratores de bitola estreita e grande pisoteio nas operações de colheita e transporte interno da produção. O conjunto de técnicas agrícolas, baseado em um sistema de controle de tráfego, viabilizará o sistema de Plantio Direto com as vantagens a ele inerentes, juntamente com vantagens próprias em termos de redução de investimentos e custos operacionais.

As barreiras tecnológicas e os correspondentes recursos disponíveis para o aprimoramento da produção agrícola estão sintetizados a seguir.

BarreiraRecurso tecnológico
Variedades de cana-de-açúcar Melhoramento transgênico
Água no solo PD
Adubação AP + BDA + TI + PD
Condição física do solo PD + ETC
Manejo de pragas AP + BDA + TI

PD: Plantio direto AP: Agricultura de precisão BDA: Banco de dados agronômico TI: Tecnologia da informação ETC: Estrutura de tráfego controlado.

A proposta de tráfego controlado com Estruturas de Tráfego Controlado (ETC’s) demonstra bom potencial de viabilidade técnica e econômica para permitir que o Plantio Direto se torne uma realidade em larga escala comercial, com possibilidade de viabilizar paralelamente a eliminação das queimadas e a disponibilidade do palhiço para aproveitamento energético.

Com a diminuição da compactação e aumento da umidade, pode-se antecipar um aumento no número de cortes da lavoura de cana-de-açúcar, com a utilização da Estrutura de Tráfego Controlado.